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Olhar para dentro: definindo a Descoberta

O ato de descobrir é almejado por todos nós, em cada fase da vida.
É o que nos move, mas também é o que mascara explorações e colonizações, como foi com os índios no Brasil.  Será que a descoberta sempre acontece de verdade? Refletimos sobre as formas de compreender tudo isso

Se abafada pelo caos dos dias lotados, se afobada pela ânsia que ambiciona o novo e descarta tradições, a descoberta não é nada além de se deparar com espelhos, refletindo a superfície de nós mesmos com nossas vontades repentinas e a ânsia por respostas imediatas. Quando engolida pela sede de sentir intensas doses de tudo, agarrar o mundo de uma só vez, se perde num encontro vazio com frágeis sensações e intenções.

A descoberta não ecoa nos gritos, não brilha em luzes neon, não se encaixa no mundo que se produz veloz, ágil e instantâneo.

Ela não se manifesta na palavra esbaforida, não vocifera certezas ou verdades absolutas, não traduz enigmas e nem traz novidades a partir da nossa busca planejada e confortável.

Por isso mesmo ela vem das profundezas, pede tempo para encontrá-la, escutá-la e observá-la, em silêncio. É na miudeza, na calma e na essência que ela acontece. A descoberta só vem, mesmo, se vier de dentro.

Ela é o novo e desconhecido no escuro, ao relento. Se revela por um olhar sutil e cuidadoso para o mundo. Um recorte da realidade nunca antes visto ou percebido por nós, seja por desatenção ou pela falta de um ângulo panorâmico que nos fizesse sair da vista única da nossa janela. Mas nem por isso ela deixa de ser tão nossa, tão autêntica.

Isso porque esse lugar, inabitado por nós até então, nos leva a tanto do que somos. Conduz à nossa identidade, ao porão mais sombrio de nós mesmos e do que um dia fomos, às memórias e histórias dos outros que desaguam nas nossas, expõem, tão nuas e transparentes, pelo que vivemos e para que nos inventamos.

Por sua pura e simples nudez, a descoberta revela-se inteira tão real que assusta. Nela, nada foge ao natural, porque se esconde e se expressa nas sutilezas e banalidades de personagens que constroem e vivem suas histórias pelas ruas, vielas e cômodos da realidade.

Nada há nada de extraordinário nela. Talvez por isso mesmo seja tão desafiadora. Porque descobrir é ato e efeito de encontrar pontos de luz no breu, ouvir vozes em absoluto silêncio. E o caminho para cada descoberta diária nunca é registrado, não se trilha mais de uma vez.

O que faz dela um eterno retorno para dentro, justamente onde tanto nos esquecemos de olhar.

Sobre Lais Rocio

Jornalista dedicada a ser, essencialmente, contadora de histórias! Apaixonada pela literatura da vida real, por investigação e pelas narrativas de culturas e tradições. Deposita em todas as experiências que desempenha, o olhar sensível e curioso, com desejo de aprender, descobrir e ser transformada pelas múltiplas realidades que as escolhem para enxergar.