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Quando assistimos juntos ao filme “Nunca me sonharam”

Educar é acreditar e dar poder. Foi pela beleza desse ato que dedicamos a tarde do último sábado (24) para exibir um filme que transborda isso: “Nunca me sonharam”, produzido por Maria Farinha Filmes, exibido pela plataforma Videocamp.

Sua fotografia é composta por cenas de muitos Brasis, retratando suas múltiplas juventudes brasileiras. Distintas caras, olhares, cores, estilos de vida e de querer viver. Da adolescência e seu rito de passagem pela escola de ensino médio: muitas ideias, muitas dúvidas, muitos sonhos… e não sonhos. De todas essas coisas, se juntam dezenas, centenas, milhares dentro de uma sala de aula – agarradas a histórias e destinos que lotam, e também pulam para fora das Escolas públicas de todo o país. E para todas essas jovens histórias, há outras numerosas sinas de professores, mães, pais, avós, irmãos, e muitos outros.

Impactados pelas muitas faltas da rede pública, mas também envolvidos nos inúmeros gestos e criações que retocam o desbotado da escola, remendam suas rachaduras, e inventam um mundo de utopias e possibilidades entre quatro paredes.

 

“Nunca me sonharam” ressoa as vozes dessas multidões, que vivem a educação pública brasileira, e são – sem querer – protagonistas dos reflexos dessa realidade. Para as vidas dos estudantes, as respostas para o “ser alguém na vida” e para o “quem você quer ser?” não importam tanto assim, deixaram de ser ou ainda não foram escutadas pelo mundo. Mas são, sim, repercutidas nos gritos de guerreiros comuns do dia-a-dia, que lutam para elevar a voz e equalizar o volume desses sonhos. Para que os zilhões de planos e ideias de jovens de baixa renda conquistem seu lugar na própria escola, e no futuro que virá depois dela.

Para revelar o que se espera da vida por trás das grades físicas e curriculares, o documentário invade o concreto de várias paredes: das que repartem as nossas cidades desigualmente, até aquelas escolares que enquadram nossos primeiros desejos. E a partir do retrato de quem está ali atrás, no início do caminho, o filme desenha o amanhã com o olhar de adolescentes, brilhando por aprender, experimentar e transformar cada espaço do seu tempo.

Uma conversa essencial 

Nossa sessão de cinema com “Nunca me Sonharam” teve algo em especial: aqueles relatos saíram da tela e passaram a ocupar a casa do Atitude Inicial! Porque cada um de nós viveu de alguma forma essa realidade. Não porque todos fomos adolescentes e frequentamos à escola, mas porque pensamos sobre o que tudo isso deixa marcado em nós. Uma reflexão não tão frequente, mas necessária para iniciar a mudança que queremos.

E foi assim que um bate-papo despretensioso pós filme, tornou-se um momento da nossa galera olhar para o que escola de ensino médio fez e faz em cada uma de nossas vidas. Colocando para fora o que sentimos com isso, revelamos o papel que cada um de nós teve, e tem nessa trajetória. A Elaine, psicóloga que atua também para despertar o olhar sensível de professores, mostrou todos os lados dessa complexa realidade e seu desejo urgente por mudança: “não poder realizar políticas públicas é violência”, conta ela, sobre o peso de trabalhar convivendo com a decadência de instituições públicas.

O Vander, ator que encena cada trabalho que sonhamos, sentiu seus próprios sonhos sendo tocados pelo documentário, e o perigo que há em encurtá-los, esquecê-los e, assim, “deixar de viver para só sobreviver”. A Dani, atriz de sentimentos expressivos, trouxe lá do fundo a memória de seu ensino médio em uma escola pública. A Lari, psicóloga e uma das primeiras somar forças ao Atitude, fala sobre a importância do seu ato diário de escutar, olhar e acreditar nos jovens de baixa renda em conflito com a lei, atendidos por ela. A Duana, educadora social que desafia a rede pública com novas produções e ideias, desabafou a dureza e também a delicadeza desse ofício de muitos.

E o Jota, nosso idealizar e coordenador criativo, foi quem puxou o gatilho para esse momento singular ao relembrar o papel dos professores que mudaram o curso de sua história para o melhor caminho possível – simplesmente com a atitude de lhe apresentar esse norte, esse poder e magia que é a educação.

Sobre Lais Rocio

Jornalista dedicada a ser, essencialmente, contadora de histórias! Apaixonada pela literatura da vida real, por investigação e pelas narrativas de culturas e tradições. Deposita em todas as experiências que desempenha, o olhar sensível e curioso, com desejo de aprender, descobrir e ser transformada pelas múltiplas realidades que as escolhem para enxergar.