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Série Histórias Trans #1

A transexualidade aos olhos de uma criança

Em homenagem à Semana da Visibilidade Trans, dedicamos a primeira edição do nosso projeto Entalado para uma série de reportagens sobre as histórias de homens trans e mulheres transexuais ao longo de suas vidas.
Neste primeiro episódio, retratamos as descobertas e desafios que atravessam a infância e a adolescência de pessoas trans no Brasil.

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Era o horário de saída da escola. Aquele momento em que todos nós, quando crianças, nos espalhamos empolgados pelo pátio até que alguém chegue para nos buscar. Tudo é brincadeira, tudo é zona e bagunça até a hora de ir embora de verdade. Carlos Eduardo era uma criança de oito anos, que tinha a sorte ou o azar de passar mais tempo no colégio depois do final das aulas diárias. Seus pais costumavam demorar um pouco mais para buscá-lo, por conta do final do expediente da mãe. Para ele, aquilo acabava sendo divertido, e a espera passava despercebida na quadra, jogando bola, correndo pra lá e pra cá, inventando coisas novas. Numa dessas brincadeiras, ele decidiu mandar um bilhetinho de pedido de namoro pra menina que era apaixonado.

Pra ele, o plano tinha tudo pra dar certo. Eles brincavam juntos sempre, ele sabia que era um menino legal e, afinal de contas, já tinha se preparado para finalmente falar com ela sobre o que sentia. Tinha certeza de que era o jeito perfeito de começar um namoro. Sabia que todos faziam aquilo e era assim que acontecia quando alguém se apaixonava. Rasgou um papel do caderno, escreveu “Quer ser minha namorada?” e entregou a cartinha pra ela. Ele não entendeu porque em seguida ela levou um susto, ficou confusa, virou as costas e sumiu de vez. Depois, Carlos contou o episódio pro seu tio, que riu e o aconselhou a não fazer aquilo. Mais uma vez, ele não entendeu.

Sem saber o que fazer com aquele sentimento, sem ser compreendido por si mesmo ou por quem estava ao seu redor, Carlos se sentia diferente de todos nessa e em outras situações que para ele eram inofensivas e próprias do seu jeito de ser um menino. Mas com o medo e a falta de informação que só confundiam seus pensamentos de criança, ele depositou e escondeu tudo aquilo numa caixinha imaginária, desejando que nada mais pudesse ser visto nem por ele e nem por ninguém.

Carlos Eduardo Medeiros hoje com 27 anos.

Carlos Eduardo Medeiros, hoje com 27 anos, é coordenador estadual do Instituto Brasileiro de Transmasculinidade (IBRAT-ES).

Foi com essa mesma inocência de criança, em um mundo mágico e cheio de descobertas, tal como foi para Carlos Eduardo, que Viviana brincava de bonecas, sonhava em ver seu cabelo crescer como faziam suas amigas e desfilava por aí com as roupas de suas irmãs. De repente, assim como foi natural gostar de todas essas coisas, também foi ser punida e proibida pelos pais de fazer tudo isso.

A partir daí, a infância de Viviana tinha como obrigação o pesadelo de sempre cortar o cabelo, e como proibição as brincadeiras que eram livremente aceitas para suas irmãs e amigas. Ela não entendia porque precisava brincar escondida, caso contrário seria punida por isso: “Eu apanhava sem saber porque. E a minha família não conseguia entender por que eu estava fazendo aquilo”, recorda. Com o medo causado pela proibição, Viviana escapou pelo esconderijo de ignorar a si mesma, e logo cedo achou que viver era agradar às outras pessoas. Se fechou para o mundo. Impediu a ela e a qualquer outro alguém de ver quem realmente era.

Com isso, ela desviou toda a sua essência para o universo dos estudos e para debaixo d’água, para onde ninguém mais pudesse enxergar. Então passou a se encontrar apenas na educação, e na natação era o momento em que ela realmente sentia que ninguém poderia impedi-la de nada. Quando entrava na água, se transportava para um lugar ideal, e só seu. Se escondia imersa ali, e por isso fazia jus ao apelido de “sereia”, dado a ela pela professora de natação.

Viviana Corrêa nos dias de hoje.

Viviana Corrêa, hoje servidora da Pró-reitoria de Assuntos Estudantis e Cidadania, da Universidade Federal do Espírito Santo.


Carlos e Viviana não estão sozinhos

Carlos, Viviana e mais no mínimo 700 mil brasileiros são transexuais, e compartilham desses mesmos sentimentos em diferentes histórias. Carlos, assim como todos os homens trans e todas as pessoas transmasculinas, nasceu com uma história já escrita para ele: a de que seu corpo deveria ser feminino, pois seu genital era uma vagina. E por isso ele sempre foi obrigado a se encaixar em um perfil, às roupas, brincadeiras, atividades e funções que dizem ser próprias de uma mulher.

Para Viviana, assim como para todas as mulheres trans, foi dito e imposto a ela que seu corpo apenas podia ser masculino, pois seu genital era um pênis, e com isso vieram todos os princípios que ditam como um homem precisa ser. Tal como explica Natália Becher, médica e uma das pioneiras nos movimentos sociais da população transsexual no Espírito Santo:

A sociedade cria uma história pra você antes mesmo de você nascer, ao dizer ‘vai ser menino’ ou ‘vai ser menina’. A verificação de sua anatomia pelos médicos, obstetras ou parteiras já traz toda uma ideia pré-concebida de como toda a sua vida deveria ser. Para mim, foi imposta a história de um menino que deveria vestir azul, brincar de carrinhos e essas coisas.”

Natália Becher hoje é referência dentro da militância trans.

Natália Becher hoje é referência dentro da militância trans.

A questão é que as pessoas trans não encontram a si mesmas e nem identificam seus desejos, propósitos e perspectivas de vida dentro desses padrões, construídos socialmente para um ideal de homens e mulheres. E esse desencontro começa com situações como a que foi vivida por Natália: “Quando pude ter noção de mim mesma, vi que essa não era a minha história. Na inocência de uma criança, sem entender que o preconceito existe, a criança simplesmente é, então eu era uma menina trans.”

Com o olhar de uma criança, a sensibilidade e curiosidade que todos nós trazemos na infância, seria possível que meninos e meninas transexuais se abrissem desde o começo da vida. Dessa forma, poderiam entender quem elas realmente são, lidando com essas descobertas com menos dores e mais aprendizados, desde que contassem com toda a base, compreensão, ensinamento e apoio da família, da escola e do convívio social.

No entanto, o preconceito de uma sociedade que reprova as diferenças e transformações em seus padrões torna a transexualidade um processo doloroso, reprimido, escondido, criminalizado e oprimido com diversas formas de violência e intolerância.

“Ninguém nasce preconceituoso. A gente aprende com os adultos a sermos pessoas preconceituosas. Uma criança lida muito melhor com uma informação nova, porque ela está em fase formação e está aprendendo. Se você pode ensinar a ter preconceito e discriminar, você pode ensinar a respeitar e a amar também”, comenta Natália.


Opressão por simplesmente ser

Assim, o passo que vem depois de se perceber diferente como Carlos, Natália e Viviana segue pela contramão do ensinamento e incentivo a se expressar e se descobrir. Como a transexualidade é rejeitada antes mesmo de ser percebida, o roteiro desde o início da vida começa na punição de quem está ao se redor e alcança ainda mais além: passa a ser o da culpa e da rejeição de si mesmo. É como descreve Natália: “Eu aprendi que a minha forma de ser espontânea era reprovável. Mesmo sabendo desde nova que eu era uma menina, tinham me ensinado que aquilo era errado”.

E quando não há espaço ou chances de se conhecer nesse sentido, a desinformação, o desentendimento e, por vezes, a total falta de conhecimento sobre o assunto marcam boa parte da infância e do início da trajetória de pessoas trans. Se a palavra “transsexual” é praticamente inexistente e desconhecida durante a educação e o desenvolvimento, o significado e ideia do que é isso passam bem longe da vista.

Enquanto o efeito disso é a ignorância e o preconceito que geram a exclusão e a violência contra essa população, o impacto se multiplica quando essas pessoas também desconhecem tudo sobre si mesmas, assim como conta Viviana: “A maneira como eu me via era algo que eu não conseguia entendimento em lugar nenhum. Aquilo me assustava muito”.

Com isso, as primeiras sensações da transexualidade por vezes não tem um nome, uma referência ou mesmo qualquer informação que possa explicá-las. Júlia, mulher trans e psicóloga, quando criança acreditava que em algum momento se tornaria uma menina. Mas o convívio com a família, com uma religião preconceituosa e a desinformação tornaram tudo ainda mais confuso e desconhecido, como descreve:

Era como se a pessoa que refletia no espelho não fosse eu, mas não tinham ninguém ou nenhum conhecimento para me ensinar sobre isso. Eu não sabia o que sentia de verdade, e não sabia o que eu era. Eu não podia falar sobre aquilo. E se eu pudesse, também não saberia o que falar. ”

Júlia Santigliani hoje fala sobre a transexualidade para diversos públicos, em debates e palestras.

Júlia Santigliani hoje fala sobre a transexualidade para diversos públicos, em debates e palestras.

Diante desse cenário, o ato de silenciar e esconder o que sentiam aparecia como única alternativa possível. Júlia passou a ignorar o assunto mesmo quando adolescente, tinha medo de falar para sua família e não tinha nenhum amigo com o qual se sentia à vontade para se abrir. Viviana lembra de sua infância e adolescência como uma fase que percorreu sendo muito retraída, sem ao menos conseguir pensar sobre isso. Natália também resolveu velar a questão, principalmente depois de uma tentativa de comentar com seus pais, que acharam que aquilo era uma brincadeira, fazendo com que ela se sentisse ridícula.

Sem possibilidade alguma de se expressar, Natália conta que um caminho comum às várias histórias de pessoas trans é o de se esforçar para ser o que a sociedade espera que elas sejam. Por algum tempo, ela mesma acreditou que conseguiria mudar a si mesma caso se dedicasse a atividades tipicamente masculinas. Na escola, tentou se incluir nos jogos, brincadeiras e esportes “de menino”, mesmo sem nunca se identificar como tal. Esses esforços para obedecer a um padrão também passaram pela vida de Carlos Eduardo, que mesmo após ter contatos com a transexualidade durante a adolescência, retraiu-se por medo do que os outros iriam pensar dele e tentou, mais do que nunca, ser a mulher que queriam que ele fosse. Usou maquiagem, vestido, deixou o cabelo crescer. Odiou ter que fazer tudo isso.

Essas atitudes são enxergadas hoje, por Natália, como parte das opressões que afetam essa população com tentativas de consertar e curar a diferença do outro por meio dessas imposições: “Ao fazer isso, as pessoas ocultam o comportamento, mas não mudam a realidade íntima de cada um. É um forma de exclusão e violência contra as pessoas trans.”


Se fechar para o mundo e para si mesmo

Em meio à severas divisões entre meninos e meninas na escola, com a exigência da família e da sociedade inteira de seguir o padrão do gênero que lhes foi imposto, diversos personagens dessa realidade tiveram a solidão, a vergonha de si mesmos e a angústia como etapas comuns dessas fases iniciais da sua vida. Ao sentirem tudo isso intensamente, eles contam que passaram por momentos de depressão e até por tentativas de suicídio, fato que, de acordo com eles, pode acontecer com muitas pessoas trans, quando zeram suas expectativas e perspectivas de vida.

Depois de passar pela infância e adolescência em uma trajetória confusa e atordoada pelo preconceito das pessoas ao seu redor e os impactos disso tudo dentro de si mesmo, Carlos optou por deixar a escola. “Eu percebi que as pessoas não iriam me entender e eu não estava me entendendo. Eu estava confuso e não conseguia mais acompanhar a escola”, conta ele. Mesmo após cursar um supletivo para recuperar o tempo em que ficou sem estudar e depois de uma tentativa de cursar uma faculdade, ele desistiu novamente não só da educação, mas também do convívio em qualquer espaço público. E nessa trajetória, somaram-se três anos de sua vida sem conseguir sair de casa, sem nenhuma vontade de interagir ou de se comunicar com amigos ou familiares, até que se percebeu com depressão.

Esse movimento também não é incomum entre as histórias de pessoas trans diante da incompreensão do mundo em relação a quem elas são. Se para muitas delas, a adolescência e a juventude podem trazer o primeiro contato com a transexualidade em espaços alternativos, a consciência de quem se é e a aceitação disso não chegam ao mesmo tempo. Por isso, perceber a própria identidade pode significar escondê-la ainda mais por medo das represálias, rejeições e violências que já foram vividas ou vistas.

E o ato constante de persistir fingindo ser alguém que não se é torna-se ainda mais insuportável. Como explica Natália, não restam muitas saídas:

Chega uma hora em que a pessoa acaba evitando contato social para não ter que lidar com o incômodo de representar alguém que ela não é. Você não pode mentir pra todo mundo o tempo inteiro, chega uma hora em que não aguentamos mais.”

Assim, pequenos detalhes, atitudes, palavras e piadas preconceituosas do cotidiano passam a ser gatilhos para que a ideia da transição de gênero se torne cada vez mais distante, assustadora e cheia de riscos. Isso se soma, ainda, à ausência de pessoas que escutem, respeitem e valorizem as pessoas trans como elas são, juntamente com a falta de conhecimento que as libertem de tudo isso, além da desinformação sobre serviços básicos de saúde que ofereçam compreensão e acolhimento.

Tudo isso torna mais desafiador e confuso o caminho de travestis e transexuais em busca de quem desejam ser e de sua própria expressão para o mundo. Mesmo assim, após percorrer todo esse caminho de dificuldades desejando se libertar e transformar a si mesmo, Carlos Eduardo deposita seus sonhos e anseios em uma frase, trasmitindo em poucas palavras o sentimento dele e de mais milhares de homens e mulheres trans nos momentos de descoberta:

Cansei de não ser eu.”

Sobre Lais Rocio

Jornalista dedicada a ser, essencialmente, contadora de histórias! Apaixonada pela literatura da vida real, por investigação e pelas narrativas de culturas e tradições. Deposita em todas as experiências que desempenha, o olhar sensível e curioso, com desejo de aprender, descobrir e ser transformada pelas múltiplas realidades que as escolhem para enxergar.