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Série Histórias Trans #2

Ser trans e aceitar a si mesmo

No segundo episódio da série de reportagens Histórias Trans, do nosso projeto Entalado, narramos como diversas pessoas deram seus primeiros passos para a transição de gênero, se aceitando e se mostrando para o mundo. 

Não foi dentro da sala de aula, mas foi na escola e no Ensino Médio. Aconteceu fora das disciplinas obrigatórias, durante o momento em que as barreiras da rotina escolar eram rompidas para dar poder aos estudantes. Foi nas ocupações estudantis, em meio aos dias, semanas e meses que pararam o trânsito do ensino tradicional para dar voz às ideias e desejos de adolescentes e jovens, em mil instituições educacionais do país.

Foi ali, dentro da primavera secundarista, que Adriel compreendeu a transexualidade sem preconceitos e se aceitou como um menino trans. Pela primeira vez, alunos de todo o país ocupavam suas escolas para reivindicar seus sonhos e Adriel descobria que tinha a chance de se expressar como ele realmente era. Foi inédito e histórico para o Brasil inteiro, e também para Adriel.

Tudo isso aconteceu com ele durante uma palestra com Déborah Sabará, mulher trans e vice-presidenta do Conselho Estadual de Direitos Humanos do Espírito Santo convidada pelos próprios estudantes para compor a programação das ocupações, que em cada escola tinha debates e oficinas sobre temas políticos, sociais e culturais. Déborah levava para os secundaristas a importância da valorização e respeito à população trans, o que faz parte de sua luta como ativista em diversos movimentos em que atua, dentre eles a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT), a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), entre outros. Quando Adriel escutou o que Débora dizia, desabou em um choro intenso.  

Ele chorava porque via na fala dela a sua própria história, que ao longo dos seu 18 anos de vida estava escondida pelo medo de represálias e discriminações, seguindo um enredo comum para muitos como ele durante a infância e adolescência. Ele já sabia que era trans, mas até então não se aceitava, e por isso não tinha coragem para contar às outras pessoas, exceto para duas amigas que sabiam sobre isso. Era, então, a primeira vez que ele podia ouvir, falar e entender abertamente sobre isso, em um espaço que não o discriminava, mas o incentivava a finalmente se aceitar e se expressar com orgulho.

Assim como era um momento inédito para Adriel, que já estava no último ano escolar, essa questão raramente é abordada nas disciplinas regulares e muito menos por educadores transexuais, uma vez que 90% das pessoas trans e travestis recorrem à prostituição por falta de oportunidades de trabalho, de acordo com a Antra.  Falas como a de Déborah são necessárias para que  meninos e meninas trans possam, antes de tudo, perceber que podem existir como são, combatendo o contexto atual de 1071 assassinatos de pessoas transexuais no país entre 2008 e 2017, que fazem do Brasil o primeiro lugar no mundo com a maior taxa de homicídios contra essa população em números absolutos, segundo a organização Transgender Europe.

Simplesmente existir é um ato de resistência em meio a essa realidade sofrida e temida, tal como revela Natália Becher, médica e militante transexual, sobre o que sentia durante sua juventude:

Natália“Quando eu era adolescente, trans era aquela pessoa que servia para ser marginalizada e envolvida com crimes. A população dizia com a maior naturalidade que tinham que matar mesmo essas pessoas, porque elas estavam incomodando e sujando a cidade. Então, eu pensava que não podia existir”.

 

 


O dia em que Adriel se aceitou

Diante desse contexto, aquela palestra com Déborah dentro da escola vinha para acolher a angústia de Adriel e de tantos jovens transexuais, que passam por esses desafios sem a liberdade de ter uma conversa aberta com pessoas que sentem o mesmo que eles. O choro de Adriel transbordava junto com o desejo imediato de dizer de uma vez por todas para o mundo quem ele era.

Sufocado pela emoção, ele foi para o lado de fora da escola, e uma colega foi atrás dele perguntar o que estava acontecendo. Ele então respondeu que era um garoto transexual, dizendo aquilo para alguém pela primeira vez sem que fosse algo a se esconder. Ela entendeu tranquilamente e, antes mesmo que ele pedisse, passou a chamá-lo pelo nome masculino, inspirando outros colegas a fazerem o mesmo posteriormente.

A partir daí, o apoio dos amigos e a sensação de liberdade incentivaram Adriel a ir aos poucos se expressando para mais pessoas ao seu redor. Até que um dia, em uma ligação com seu pai, ele não se conteve em dizer: “pai, eu sou um garoto”. Depois disso, ao encontrar vários colegas reunidos no colégio, disse novamente em alto e bom som que era um homem trans, explicando abertamente para quem estivesse disposto a participar da sua vida com amor e respeito. E então, todos passaram gradativamente a chamar Adriel da forma que ele sempre desejou escutar. Para ele, tudo aquilo marcava um novo rumo para sua história:

“A partir daquele momento me aceitei. Foi quando vi que sou assim, é isso que quero pra mim e ponto final.”

Adriel

 


Pequenos atos transformam

A fase da escola, que foi para Adriel e para diversas pessoas trans um lugar de desafios e poucas oportunidades, teve para ele um desfecho transformador e com esperanças renovadas para o futuro. Com isso, a rotina que costumava ser traumática passou a dar inspiração para passar pela transição de gênero e construir sua própria história. Assim, a formatura do Ensino Médio foi um dos dias mais felizes e marcantes de sua vida, quando vestiu sua primeira blusa social masculina para conquistar o diploma escolar do jeito que sempre sonhou: sendo ele mesmo.

Mesmo quando a falta de apoio da família tornavam mais desafiador e solitário o caminho de Adriel, o respeito e empatia vieram mais uma vez de dentro da educação. Durante os cursinhos preparatórios para ingressar no vestibular, uma simples conversa novamente transformou tudo ao relembrar que ele não estava sozinho nessa. O professor de redação, ao falar sobre família em uma de suas aulas, mencionou com toda naturalidade a presença das pessoas trans e travestis dentro do ambiente familiar. Sentindo-se representado e compreendido, Adriel chamou ele pra conversar no intervalo. O professor Adryelisson o acolheu e o inspirou ao contar histórias de pessoas trans que conhecia, inclusive de mulheres que protagonizaram o documentário “Eu,mulher”, dirigido por ele mesmo para narrar as opressões que elas sofreram ao longo da vida.

Esse e outros olhares sensíveis que chegaram até Adriel contribuíram para que a sua transição de gênero viesse logo aos 19 anos, de forma menos solitária, com um pouco mais de acolhimento e informações para passar por isso. Se para ele já foi doloroso percorrer toda a infância e adolescência silenciando a si mesmo, tudo pode ser mais intenso e desafiador para aqueles que passam por transições ainda mais tardias.

Para Viviana, mulher trans nascida na década de 80, a transição veio tão tardiamente que a fez passar por boa parte da juventude e vida adulta sem conseguir entender a si mesma. Só veio próxima aos 30 anos de idade, quando uma amiga trans explicou a questão a ela. Com o medo e opressão que vivenciava ao longo da vida, ela só conseguiu transicionar após alcançar estabilidade financeira e de trabalho.

Viviana“Apesar da descoberta da minha transexualidade ter vindo cedo, a transição veio muito tarde. Eu achava que teria que ir pra rua me prostituir e não queria isso. Sei que eu não teria a oportunidade de estudar e fazer vários cursos como fiz. Existem pessoas que transicionam até com 60 anos de idade por viverem a vida inteira oprimidas pela sociedade”, conta ela.

 

Para essas pessoas, faltou um simples olhar para quem elas realmente são. Faltou alguém, em algum momento, mencionar a palavra transexual com seu verdadeiro significado e sem a carga de preconceitos comumente atribuídas a ela. Faltou um pouco de espaço e de tempo que as desse voz. Faltou apenas a inclusão.


Júlia e o conhecimento que liberta

Uma única pessoa em poucos minutos é capaz de transformar uma história inteira marcada por todas essas faltas de compreensão, respeito e informação. Assim foi para Júlia, mulher trans e psicóloga, que passou por estados depressivos em sua juventude por conta do preconceito e desinformação que a impediam de se descobrir. Com poucas palavras e uma interrogação, uma professora do primeiro período de sua graduação em Psicologia fez desmoronar e reconstruir todo esse roteiro que ela seguia até então. A pergunta da professora foi simples, direta e inédita: “Você já olhou pra você?”, com esse questionamento, ela foi conversar com Júlia percebendo que sempre ficava em silêncio e parecia esconder alguma coisa sobre ela mesma.

Com isso, Júlia se sentiu confortável o bastante para contar tudo aquilo que não dizia para ninguém. Ela se abriu e desabafou sobre a falta de conhecimento que tinha com a sua identidade de gênero. Até então, ela se assumia para a sociedade como um homem gay mesmo sem se identificar como tal. Isso porque não entendia que o que sentia se tratava apenas do gênero, e não da orientação sexual. Toda a desinformação a impedia de compreender que, na verdade, ela era uma mulher trans e heterossexual. Tal como explica este infográfico, publicado originalmente pela Ponte:

Infografico_Genero-01

Arte: Junião/Ponte

 

A partir daí, a professora levou até ela todo o conhecimento sobre o movimento lgbt, a travestilidade e a transexualidade. Ao ler tudo aquilo, ela sentiu o que diversas pessoas trans sentem ao se deparar com a representatividade, e empolgada disse à professora: “Isso descreve tudo o que eu sinto e nunca consegui falar. É a minha história escrita aqui”. A partir daí, ela percebeu que poderia renascer, tal como hoje relembra:

“Tudo começou assim, dentro da universidade. Não é à toa que dizem que o conhecimento liberta, e liberta mesmo.”

Júlia

Para ingressar nessa nova jornada, o apoio cuidadoso das pessoas ao redor  proporcionavam a ela uma transição vivida com leveza e sentimento de renovação, apesar das dificuldades.  À medida em que chegavam os desafios, a professora orientava para que ela passasse pelas mudanças aos poucos, conhecendo a si mesma. Entre os ensinamentos, também estavam os de superar primeiro os próprios preconceitos e construir a mulher que ela desejava ser. Um professor de Júlia também somou-se a essa luta, incentivando ela a usar o seu nome nas listas de chamada, nas provas e no convívio social da universidade, mesmo sem existir na época nenhuma legislação sobre o nome social. 

Percorrer o caminho da descoberta e aceitação da transexualidade  pode ser transformador não só para pessoas trans, mas para toda a sociedade ao despertar a inclusão em torno desse processo vivido por tantos de nós. Os personagens dessas histórias reais vêem e sentem a mudança não só dentro de si mesmos, mas de todo o mundo ao seu redor. Se todos mudam juntamente com isso, podem crescer juntos com acolhimento e compreensão, tal como reflete Júlia:

“A transição não é só singular, ela é bem plural. Se for tratada de forma humana e com respeito, uma pessoa trans pode mudar todo o cenário.”  

Sobre Lais Rocio

Jornalista dedicada a ser, essencialmente, contadora de histórias! Apaixonada pela literatura da vida real, por investigação e pelas narrativas de culturas e tradições. Deposita em todas as experiências que desempenha, o olhar sensível e curioso, com desejo de aprender, descobrir e ser transformada pelas múltiplas realidades que as escolhem para enxergar.