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Série Histórias Trans #3

Além de trans, somos muito mais

 

Finalizando a série de reportagens Histórias Trans, do nosso projeto Entalado, retratamos o que vem depois da transição de gênero: as lutas e realizações das vidas de pessoas trans ocupando diversos espaços e sendo tudo o que quiserem ser!

Foi percorrido um caminho profundo em direção a si mesmo para estar aqui, no ponto de chegada e partida ao mesmo tempo. Chegada de uma longa jornada de fugas, confusões e lutas contra a ignorância, a violência e a intolerância. Partida para um novo começo que trilha sonhos, propósitos e realizações de vida.

Essa é a jornada de pessoas transexuais após o caminho duro e libertador de se descobrirem, se conhecerem e se aceitarem. Esse é o momento que chega com a conquista da transição de gênero, não necessariamente feita por meio de tratamentos hormonais e cirurgias, mas por diversas formas que para elas representam a afirmação de quem são de verdade.

A partir daí, passam a se realizar e construir a própria história, ocupando diversos espaços e desempenhando vários papéis na sociedade. E para que tudo isso aconteça sem que as opressões e o preconceito cotidiano as impeçam de alcançar seus planos, elas se unem e lutam pela própria vida. E justamente ao se afirmarem e reivindicarem reconhecimento, valorização, igualdade de direitos e oportunidades para sua população, elas mostram que podem ser tudo o que quiserem.

“Ser trans não é a única coisa que eu sou. Isso não deve ser uma categorização, e nem deve ditar a maneira como as pessoas interagem comigo. Eu luto para que as pessoas sejam mais humanas com a nossa população, porque nós somos tratadas como pessoas que não tem caráter. Estamos conseguindo reexistir em vários espaços!”, afirma Viviana, militante e secretária executiva na Universidade Federal do Espírito Santo.

Assim, elas são pessoas como Júlia, a promotora de vendas de uma multinacional, a psicóloga, a educadora, a noiva, a tia e filha de alguém. São Natália, a médica, a amiga; São Éstrel, o escritor de poesias, o irmão, o namorado. A transexualidade não define quem são, e não deve definir quais são as histórias, vivências e relações que elas terão. Todas essas pessoas são muitas coisas, são diversas, são únicas e particulares.

E a partir da transição, elas são tudo isso de uma vez por todas, uma vez que esse momento chega para elas como um renascimento, trazendo a oportunidade de se abrirem para o mundo, descobrirem ainda mais sobre si mesmas e mostrarem tudo o que são! Isso porque antes disso, a opressão e o preconceito que silenciavam a sua expressão em relação ao gênero também impediam que elas se desenvolvessem em outras áreas de sua vida, tal como mostra Éstrel com o exemplo da educação:

“Você não consegue ter aquele foco para pensar ‘qual a matéria de hoje?’ sendo que você está pensando: quem sou eu?”

Assim, tudo isso também significa despertar quem se é por inteiro. Por isso, o acesso à cidadania, à dignidade e aos direitos fundamentais devem ser essenciais para esse processo que faz parte da vida dessas pessoas. A importância disso faz toda a diferença para reverter a realidade de violências e falta de oportunidades contra essa população, tornando necessário e marcante ter conquistas como as que tivemos na semana passada, com algumas decisões do Poder Judiciário do país:

No Supremo Tribunal Federal, foi permitida, para transexuais e transgêneros, a alteração do nome no registro civil sem a necessidade de cirurgia de mudança de gênero, bem como a permissão da requisição dessa alteração em cartório, não sendo preciso ter autorização judicial. E no Tribunal Superior Eleitoral, foi permitido que candidatos transexuais registrem seu nome social nas urnas das eleições de 2018.

 


 

A professora Viviana

Com isso, a chegada do que vem depois da transição traz diferentes histórias traçadas não só pelas perspectivas de vida, mas também pelos espaços, pessoas e situações que acolhem ou não essas pessoas após se afirmarem. Para Viviana, esse momento representou não só o alcance da mulher que ela queria ser, mas literalmente a chegada em um lugar novo, em que ela poderia reinventar sua história sem as barreiras do passado. Para ela, a mudança de gênero veio também com a de casa e de cidade, e tudo isso trouxe um novo horizonte para ela reconstruir.

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Surgiu a oportunidade de atuar como professora em outro município do Espírito Santo, ao mesmo tempo em que Viviana passava pelo medo de sofrer julgamentos, humilhações e agressões principalmente das pessoas que já a conheciam antes dela afirmar sua identidade de gênero, como conta: “Eu estava tão fragilizada naquele momento que achei que não ia aguentar”.

Por isso, ela se se interessou por aquela chance de emprego longe de casa, para sair do seu contexto e experimentar um novo cenário em que as pessoas poderiam conhecê-la primeiramente como Viviana. O desejo de construir essa nova realidade foi tanto que ela passou em primeiro lugar no concurso público. E quando chegou na nova cidade, a valorização e respeito que recebeu vieram como uma boa surpresa:

“Fiquei muito feliz em ser eu mesma. Assim que cheguei, fui muito bem acolhida, as amizades que fiz foram muito importantes para o meu empoderamento, para entender o quanto eu valia. Passei por situações de preconceito sim, mas o fato de eu ter pessoas tão legais a minha volta fez com que nada daquilo importasse. Foi inclusive nesse momento que me tornei militante.”

Apesar da sensação de libertação que causa, a transição é temida pelo fato da pessoa se sentir mais exposta depois de passar por isso, e portanto, mais vulnerável às represálias da sociedade. Mas tal como aconteceu com Viviana, esses medos podem diminuir à medida em que se têm reconhecimento, o que significa empoderar, potencializar e possibilitar com que essas pessoas se sintam bem e realizadas consigo mesmas. Nesse sentido, Viviana continuou tendo mais surpresas e conquistas: ao retornar para sua cidade natal, foi contratada para lecionar na mesma escola em que trabalhava antes de afirmar seu gênero, e conta o que sentiu com isso: “Aquele local me acolhia pela profissional que eu sou, e não importava a pessoa que eu era. Fui tão acolhida que me senti realmente realizada profissionalmente.”

Mesmo que hoje sinta essa realização e estabilidade, apoiada pelos diversos atos de empatia ao seu redor, Viviana não desiste de lutar na militância LGBT não só por ela, mas por outros que não tiveram as mesmas oportunidades.  Essa luta se faz cada vez mais necessária para que histórias como as de Viviana se multipliquem e ultrapassem tantas outras que não têm os mesmos destinos, que elencam estatísticas de violência, assassinatos e marginalização contra travestis, homens e mulheres trans. E seguir cada dia acreditando na importância dessa luta é o que ocasiona pequenas e grandes revoluções diárias em muitas dessas vidas.


 

A psicóloga Júlia

Júlia é uma dessas pessoas que, com sua única voz e o impulso em conquistar direitos básicos, provoca diversas mudanças que contribuem para melhorar o cenário não só para ela, mas para todos que estão nessa realidade. Ao mesmo tempo em que ela começava a refletir-se no espelho do jeito que ela sempre desejou ser, sua rotina seguia o trabalho como promotora de vendas e o curso na faculdade de Psicologia.

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E como fica a transição de gênero no meio do turbilhão do cotidiano, entre os compromissos e relações do dia a dia? Por isso, o ato de permanecer mudando nesses espaços foi o que trouxe desafios e também conquistas para ela!

 

 

Logo quando começou a mudar, ela presenciou uma primeira reação da empresa em que trabalhava: seu supervisor ordenou a ela que cortasse o cabelo, e ela obedeceu, já que dependia daquele emprego para se sustentar. No entanto,  ela deixou o cabelo crescer novamente e ficar ainda maior do que antes. E ao receber o segundo pedido do supervisor, ela reagiu, perguntando em que o cabelo implicava em seu trabalho. Diante da resposta do supervisor dizendo que eram algumas políticas da empresa, ela questionou “Você vai pedir para cortar o cabelo de todas as meninas?”, e ele respondeu negando. Com isso, ela refutou “Então porque só eu tenho que cortar o meu?”, deixando o supervisor sem argumentos que a obrigassem a mexer no seu visual.

Sem saber, Júlia despertava e inspirava naquele espaço um sentimento que viria a tornar mais humano e respeitoso o tratamento dos colegas de trabalho. A questão voltou à tona quando ela decidiu sair da empresa porque precisava se mudar e retornar para sua cidade natal. Com isso, a coordenadora da organização ofereceu e insistiu em transferir o cargo de Júlia para uma filial no seu município, dizendo que percebia o que acontecia com ela e seria difícil conseguir um emprego, mas que torcia muito pelo seu sucesso.

Júlia aceitou a proposta e, ao chegar no novo emprego, se deparou com mais situações de respeito e empatia, ao mesmo tempo em que volta e meia precisava provocar algumas mudanças para fazer daquele espaço mais inclusivo. Assim que ingressou no novo cargo, a ausência do nome social em seu crachá fez com que um gerente duvidasse de que ela estava trabalhando, porque ele havia sido informado de que receberia um novo promotor de vendas e não uma mulher. Ela precisou explicar a situação a ele, que a compreendeu e sugeriu que ela não usasse mais aquele crachá. Assim, Júlia se sentia respeitada e acolhida por diversos colegas de trabalho que, mesmo com o desconhecimento sobre o assunto, aprendiam com ela a respeitar e a valorizar.

A desinformação e estranhamento da sociedade com a presença de transexuais em diversos espaços foi clara e expressiva para ela quando, durante o trabalho, recebeu de um idoso a seguinte pergunta: “Se você trabalha e estuda à noite, que horas faz programa?”. Com paciência e consciência de sua luta diária para combater a ignorância e o preconceito, além de responder que não se prostituía, ela também explicou e o fez perceber o contexto das pesssoas trans e travestis obrigadas a se prostituir por falta de oportunidades e recursos para suas necessidades básicas de vida.

“Sempre quando me traziam perguntas, que eram muito invasivas, eu explicava o porque disso acontecer. Assim, aos poucos eu conseguia mudar todo o cenário”, relembra ela.

Com a experiência de revolucionar o quanto fosse possível, ela também conseguiu modificar a política do nome social na universidade em que cursava. Ela tinha acabado de realizar metade do curso de Psicologia em outra faculdade com educadores que a acolhiam e incentivavam a não se esconder, o que inclusive fez uma professora levar a história de Júlia para dentro da sala de aula, dando o exemplo dela com representatividade, ao ensinar sobre a transexualidade para todos os alunos.

Ao voltar para a cidade natal, ela chegou na nova universidade solicitando um de seus direitos mais básicos e fundamentais: o nome social, que foi negado pelo reitor da faculdade. Inconformada com essa resposta, percebendo o histórico da universidade em nunca ter permitido o uso do nome social a nenhum estudante, Júlia não desistiu. E assim, ela se dedicou a reivindicar esse direito não só para ela, mas sim para todos.

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Algumas pessoas me falavam para entrar com processo contra a universidade, mas se eu ganhasse seria só eu, e outras pessoas que precisassem processar novamente. Então comecei a exigir da universidade o nome social para todas as pessoas trans que fossem passar por lá!”, argumenta ela.

A voz de Júlia por essa causa de muitos ecoou e sensibilizou outros espaços, mobilizando diversos movimentos sociais da comunidade LGBT, além de alunos e professores da própria universidade, a imprensa local, advogados que acompanharam o caso e até mesmo o Conselho de Psicologia. Tudo isso ocasionou a mudança da universidade não só no posicionamento com Júlia, mas de todo o regulamento com alunos e funcionários transexuais ao ingressar na instituição.


 

O poeta Éstrel Miguel

Resgatando mais uma vez aquele ponto de chegada e partida, onde se situa a jornada a partir da transição de gênero, relatamos aqui alguns caminhos seguidos a partir daí. Mas estar  exatamente naquele ponto, apesar de todo o caos e luta que pode vir antes e depois dele, é um momento de calmaria, tranquilidade e paz como nunca foi sentido antes, assim como descreve Éstrel Miguel, sobre o momento em que se afirmou:

“Verbalizei a palavra do meu nome pela primeira vez sozinho, antes de dormir. Deitado no escuro, só falei e senti muita paz. É como se todo mundo ficasse em silêncio. Aquela foi uma noite mais tranquila”.

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Para ele, que não suportava nem o ato de se olhar no espelho, o seu caminho após a mudança de gênero pode ter começado antes mesmo do tratamento hormonal e da cirurgia. Isso porque, ao contrário de outras histórias que contamos, mesmo ao se reconhecer como menino ele não conhecia nenhuma outra pessoa como ele e não sabia onde buscar pela cirurgia. E como mostramos que muitos caminhos se cruzam nessa realidade, não só para a realização própria mas para a conquista coletiva, foi aí que Éstrel foi impactado por uma dessas pessoas que luta por muitos.

Ele estava vendendo poesias no Centro de Referência da Juventude, vivenciando um dos primeiros momentos da vida em que se sentia bem, quando um menino trans veio conversar com ele. O garoto perguntou se ele era trans também, e ele respondeu que sim. Daí vieram milhares de descobertas e informações sobre o ambulatório, os movimentos sociais e diversos espaços em que ele poderia se realizar por completo.

A partir daí, do garoto que não se identificava em nenhum espaço, Éstrel passou a ser um dos integrantes do Instituto Brasileiro de Transmasculinidade, foi ao Ambulatório para passar iniciar o tratamento de mudança de gênero e se encontrou mais ainda. Ao alcançar o propósito de quem ele realmente era, ele contou tudo aquilo para a família em forma de poesia. Um dia, entregou para sua irmã um de seus textos retratando a própria transexualidade. Ela leu, compreendeu, o chamou de irmão e logo depois explicou aquilo com sensibilidade para toda a família, tirando todo o peso peso das costas de Éstrel.

“A transição me dá uma transformação tão grande por dentro, que até a minha família disse: você é a pessoa que eu sempre esperei conhecer. Porque antes eu era fechado, a minha mãe não sabia nem qual era a minha cor preferida. E a partir dali, comecei a falar e escrever.”

 


*Onde se informar e buscar ajuda

“As pessoas trans devem estar em todos os espaços públicos e espaços de debate.” Déborah Sabarah, ativista trans e vice-presidenta do Conselho Estadual de Direitos Humanos do ES.

 
Apoio:

De acordo com Déborah, as pessoas trans podem buscar apoio em diversos órgãos públicos como: Núcleos de Direitos Humanos de Defensorias Públicas; Centros de Referência da Assitência Social (CRAS); Unidades de Saúde; Secretarias e Conselhos de Direitos Humanos ligadas à população LGBT.

Redes LGBT, de travestis e transexuais:

Antra; Instituto Brasileiro de Transmasculinidades ; ABGLT ; Associação Gold ; Trans do ES ; Empoderades ; LGBT Cariacica ; ES Cineclube Diversidade ;

Cirurgia de mudança de gênero: 

Ambulatório Trans | Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), localizado na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), campus de Maruípe.

Denúncias de crimes: Disque 100

A denúncia pelo Disque 100 é importante para registrar as estatísticas de violência. Toda vez que a gente liga, a gente está demarcando a violência que foi feita contra a população LGBT. Não precisa ser a vítima para fazer a denúncia, podemos denunciar por amigos, vizinhos e conhecidos”, informa Déborah.

Sobre Lais Rocio

Jornalista dedicada a ser, essencialmente, contadora de histórias! Apaixonada pela literatura da vida real, por investigação e pelas narrativas de culturas e tradições. Deposita em todas as experiências que desempenha, o olhar sensível e curioso, com desejo de aprender, descobrir e ser transformada pelas múltiplas realidades que as escolhem para enxergar.