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Série Afropotências #1

Não só luta contra o preconceito,
mas poder para o povo preto.

 

O poder da negritude capixaba com destaque nacional no Empreendedorismo, Arte, Justiça e Educação. Esse é o tema da nova série de reportagens semanais do nosso Projeto Entalado, que começa neste primeiro episódio.

 

Uma negritude protagonista, com poder para ser o que quiser. Não aceita mais ser minoria social, e reivindica ser em todos os espaços a mesma maioria que são no país, onde mais da metade da população é preta ou parda.  Por isso decidem chutar a porta e ocupar tudo. Criam um novo mundo em que a pele preta é força e poder, e não fraqueza.

Fazem tudo isso sob o mesmo solo em que o racismo extermina vidas negras. Por isso resistem e lutam só ao existir, mas não apenas existem: são potências, transformam tudo, valorizam a própria história.

Inventam um passado não só feito de senzala e escravidão, mas de quilombo, capoeira, orixás e África ancestral. Um presente não de violência na periferia, mas de oportunidades pra sonhar e conquistar seja lá o que for com a riqueza, cultura e sabedoria da favela. E um futuro afrofuturista, feito da tecnologia do tambor do funk e do Candomblé, com a criatividade de um povo preto livre.

“A história já colocou a gente num lugar sem valor nenhum,
do preto no lugar do escravizado.
Essa não é a única narrativa possível.

Quando vejo um professor ou empresário negro fazendo uma revolução na sua comunidade, vejo que não somos só resistência contra o preconceito.
Somos potentes mesmo!”,

afirma Jota Júnior, diretor executivo da Atitude Inicial.  

Assim, em revoluções diárias eles invadem a política e os governos, refazem a história do país, da sua cidade ou da sua comunidade. Lotam os palcos, passarelas, cinemas, comerciais e também seus bastidores e produções, valorizando seus traços, vozes e cabelos crespos. Essa mesma negritude toma a frente de negócios e empresas, lidera inovações, criações e empreendimentos. E também transforma museus de arte, universidades, espaços acadêmicos e científicos.

São mulheres negras periféricas, bichas pretas da favela, homens e mulheres trans e travestis, meninas e meninos pretos que ousaram sonhar com esse mundo diferente. Essa negritude inteira, diversa e potente, atua exatamente nos lugares para onde nunca foram convidados. São referência e inspiração justamente aonde nunca se viu um negro liderar, representar, ser dono do dinheiro, ser parte da maioria ou personagem principal. Desafiam sociedades e Estados inteiros apenas sendo o que são, potências negras.

O problema é que sou preta e ótima.
Ninguém conta
para as nossas crianças pretas
que nós somos ótimas.
Se eu fosse preta e ruim,
seria o que esperavam que eu
fosse”,
reconhece a empresária Priscila Gama.

 

Foto: Produção Bekoo das Pretas, produzido pelo Instituto Das Pretas

 


Toda essa realidade existe sim, e é só o começo. Porque ainda hoje, ao mesmo tempo em que vive essa negritude tão rica e potente, homens negros sofrem agressões e assassinatos pela violência policial, mulheres pretas são vítimas de feminicídios, abusos sexuais e padrões de beleza, e as lésbicas, gays, trans e travestis negrxs continuam sendo brutalmente violentados e marginalizados nas ruas.

Assim, todo o empoderamento e representatividade negra são também luta diária, e acontecem inclusive para contrariar as heranças dos quatro séculos de escravidão, no último país da América a abolir o maior tráfico de africanos no mundo, que foi o Brasil. E quando aboliu, deu um fim sem direito a recomeço. Um regime imensamente doloroso e desumano que acabava sem dar o mínimo de acesso para uma vida digna a partir dali. 130 anos depois dessa falsa abolição, o racismo apenas mudou de endereço. Das senzalas para periferias, atualizou seus autores e jeitos de continuar excluindo e desvalorizando a negritude em todos os lugares e momentos da vida.

“É preciso encarar as sequelas da escravidão.
Perdemos as referências, fomos desumanizados.
Cada família preta e afrodescendente tinha que ter
assistência social e psicológica”,
lembra Flavio Tongo, engenheiro e empresário.

Hoje, pessoas pretas e pardas são vítimas de mais de 70% dos assassinatos no país a cada ano, de acordo com o Atlas da Violência 2018. A pele negra como alvo principal da guerra brasileira se revela cada vez mais, inclusive na violência contra a mulher e a juventude. Tal como disse a vereadora negra e periférica Marielle Franco, pouco antes de ser brutalmente assassinada: “Quanto mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”. Essa é a questão que fica quando olhamos para os dados e suas histórias por trás:

Arte: Atitude Inicial

Arte: Atitude Inicial

 

Como reflexo disso, a pele negra também determina a parte mais prejudicada em diversos outros espaços, como nas escolas, hospitais, no mercado de trabalho, mídia, entre outros:

 

 

 

 

 

Com isso, nos dividimos em diversos Brasis com desafios e oportunidades diferentes para cada cor de pele. O Espírito Santo é um dos destaques nacionais na desigualdade racial, onde negros vivem com quase os mesmos riscos de homicídios no 4º país do mundo com mais mortes, a Colômbia, em uma si tuação bem diferente da população branca:

 

 

 

 

Fora do eixo Rio-São Paulo, para onde os olhos do Brasil geralmente enxergam tudo acontecendo, a negritude do Espírito Santo transforma essa realidade repartida protagonizando novas cenas, que alcançam potência nacional e internacional. De empresários a artistas, pretos e pretas capixabas mudam rumos do empreendedorismo até a arte, da educação até a justiça.

 

“Se não oportunizamos e não incluímos os negros em
várias áreas de destaque profissional,
estamos privando a nação dos nossos melhores nomes também”,
afirma o advogado André Moreira.


Assim, se reerguem dia após dia afropotências como Jota Júnior, idealizador da empresa social Atitude Inicial, que inclusive oportuniza que pessoas pretas e de periferia sejam potencializadas a mudar o mundo e atuar com o que amam. Tal como a empreendedora social e presidente do Instituto das Pretas, Priscila Gama. Ela resolveu criar por conta própria projetos culturais inéditos, dedicados e totalmente protagonizados pela negritude, principalmente feminina.

Também foi assim que a rapper Afari transformou palcos e batalhas de rap em lugares povoados por mulheres negras e periféricas cheias de poder. Com a poesia das suas rimas ela valoriza a identidade preta e periférica, atuando com um sentimento comum entre várias afropotências:

“A nossa juventude está sendo exterminada e escravizada,
mas ainda assim conseguimos extrair beleza e alegria,
o sorriso das crianças e o colorido da comunidade.
Para nós, o desacreditar das pessoas é um combustível.
Podem até desacreditar, mas vão ver nossa evolução através disso.
A superação é o mais importante de tudo isso,
é o que nos transforma.”

 

Foto: Produção Melanina MC’s

Por outros lados por onde o racismo também tenta calar vozes negras, ecoam os gritos da representatividade. Nas Artes Plásticas, Castiel reivindica seu lugar como bicha preta e periférica. Leva a cultura preta e da favela para dentro dos museus e galerias de arte. O cineasta Izah abre caminho para a representatividade, igualdade e diversidade racial para dentro dos roteiros e direções. Por meio das lentes, conta histórias de empoderamento de várias vidas negras. Assim como o ator Vander Neri, que descobriu no teatro um universo para ser o que quiser: negro, gay, periférico e umbandista, cheio de desejos e sonhos que antes nunca pensou que podia simplesmente imaginar.

Os irmãos, sócios, engenheiros e empresários Ana Paula Tongo e Flavio Tongo transformam o mundo negócios em espaços para que pretos potentes sejam lideranças, e não apenas minorias. E o diretor escolar Elizeu Moreira dos Santos atua em uma escola pública de periferia para resgatar e criar novas perspectivas para jovens negros. Tudo isso também se reflete na justiça para o povo preto, com o advogado André Moreira, que promove acesso à justiça e aos direitos humanos para a negritude.

Todas esses personagens fazem parte da série de reportagens Afropotências, produzidas dentro do Projeto Entalado, feito para quebrar tabus e preconceitos, pela empresa social Atitude Inicial. Ao longo das próximas semanas, vamos contar as histórias, desafios, realizações e sonhos dessas pessoas em diversos espaços de destaque. Aqui, retratamos sua potência no Empreendorismo, na Arte, nas Políticas e Direitos Humanos. A cada matéria, narramos a negritude protagonizando e revolucionando cada uma dessas área de atuação.

Sobre Lais Rocio

Jornalista dedicada a ser, essencialmente, contadora de histórias! Apaixonada pela literatura da vida real, por investigação e pelas narrativas de culturas e tradições. Deposita em todas as experiências que desempenha, o olhar sensível e curioso, com desejo de aprender, descobrir e ser transformada pelas múltiplas realidades que as escolhem para enxergar.