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Afropotências #2

Ser empresário é coisa de preto 
Para afropotências do empreendedorismo social,
ser criativo e inovador não é nada novo.
É o que sempre foram na favela.

Ser negro e empresário é diariamente revolucionário. É jogar o jogo do mercado, para dar poder às ideias de quem nunca foi incentivado a apostar o próprio sonho na competição do empresariado. E ao mesmo tempo, empreender com a estratégia que a negritude sempre teve para reinventar a vida. Na favela, no quilombo e nos vários espaços que ousaram dizer que um preto não podia ser dono da própria história, ou do próprio negócio. Esse é o cenário das afropotências do empreendedorismo social Jota Júnior, da  Atitude Inicial, e Priscila Gama, do Instituto das Pretas. Retratados no segundo episódio da série de reportagens Afropotências, do Projeto Entalado

“Somos empreendedores desde que pegamos
a nossa carta de alforria
e não tínhamos para onde ir”,
reconhece a empresária paulista 
Michelle Fernandes,
durante o Encontro Das Pretas (Vitória/ES).

É um saber e fazer que não costuma ser ensinado nas escolas, nos cursinhos profissionalizantes ou em outros serviços públicos que atendem à população negra. Mas é o que faz as comunidades inventarem os seus próprios negócios, artesanatos, gambiarras, feiras e vendinhas. Que vão para além do próprio sustento, e despertam união de talentos e propósitos de vida.

Tudo isso fortalece um mercado que, diante das crises, cada vez mais se alia à economia criativa. Envolve inovação, sustentabilidade, diversidade cultural e inclusão social. Valores indispensáveis aos ditos novos negócios, mas que os afroempeendedores sempre viram acontecer ao seu redor. Ao longo de sua vida, Jota Júnior presencia sua mãe, costureira e artesã, abrindo pequenos empreendimentos no bairro e cursinhos para ensinar seu ofício a outras mulheres como ela. Diversas vezes, ele entendeu o significado da economia criativa quando via a vizinhança montar feirinhas no bairro para vender seus produtos caseiros.

“Inovação empresarial não é só
tecnologias de máquinas,
é inovar nas ideias.
E isso é o que as favelas fazem há anos”,
afirma Priscila Gama.

Por isso, alguns empresários negros lutam também para que essa criatividade periférica não seja reapropriada por pessoas não negras que dão novos nomes a essas práticas, e as afastam de suas origens, como observa Priscila. E com isso, afroempreendedores ocupam o mundo dos negócios, para que essas criações e habilidades sejam reconhecidas como as potencialidades que são. Ao abrirem caminhos inéditos de igualdade racial e protagonismo, tornam-se por conta própria autores dessa transformação:

 

 

“Se não tem espaço para mulheres negras,
então nós vamos criar!
Criamos nosso próprio lugar ,

com nossos direitos de viver, curtir, ser livre e bonita”,
conta Priscila Gama, sobre os projetos que desenvolve.

 

Assim, abrem novas possibilidades para que negros tenham múltiplas chances, inclusive financeiras, de serem o que quiserem profissionalmente. Para que não tenham como únicos caminhos possíveis o envolvimento com a violência, ou as profissões e cargos mais desvalorizadas pela sociedade. Como explica o advogado e defensor dos direitos humanos André Moreira: “Ás vezes os nossos melhores nomes estão lá no crime, com pessoas tão boas em organização que organizam o tráfico. Cada um emprega sua capacidade naquilo que dá sobrevivência”. Foi acreditando em tudo isso que os personagens dessas histórias, Priscila e Jota, ergueram empresas com propósitos que transcendem suas profissões individuais.

“Negócios sociais existem para resolver problemas
que a gente enxerga todos os dias.
São negócios feitos para mudar o mundo”,
explica Jota Júnior.



O fantástico mundo de Jota

O gosto por desafiar a realidade e sonhar a partir da escassez foi despertado em Jota desde cedo. Quando nem imaginava idealizar e ser diretor executivo da empresa social Atitude Inicial, que hoje chega a seis anos de existência, mais de 150 projetos desenvolvidos, e 600 mil reais de faturamento ao ano.

Ao longo da infância, Jota se via como no Fantástico Mundo de Bob, um desenho animado dos anos 90. Era sobre uma criança que imaginava mundos coloridos, espaços siderais e outros cenários incríveis no lugar da sua simples casa suburbana. E também era assim que Jota reinventada sua vida de um menino de família pobre, morador de uma região marginalizada do bairro Santo Antônio (comunidade em Vitória/ES, que mistura moradias tradicionais e outras mais precárias, originárias de ocupações em morros e mangues).  Criava as próprias brincadeiras, como rifas na escola para dividir o lanche que nem todas as crianças tinham. Idealizava seus brinquedos no lugar daqueles que não tinha acesso, e até mesmo novas memórias para substituir traumas familiares mais sérios, como relembra:

“Eu inventava um mundo em
que eu podia ser o que quisesse.
Que não fosse tão precário
quanto o que tinha ao meu redor.”

Da mesma forma, sempre rejeitou as imposições, e questionava os porquês da realidade ser como era. Tudo isso guiou Jota a descobrir, mais tarde, que podia não só desvendar essas razões, mas também mudar tudo de fato. E depois, percebeu que esse desejo não precisava ser apenas um hobbie, mas a sua missão principal de vida e profissão. Com isso, se identificava cada vez mais com o verso de um rap do Emicida que serviu como mantra: “só água na geladeira e eu querendo salvar o mundo”.

Com quase nada além da própria imaginação, foi ultrapassando as fronteiras impostas em seu bairro periférico. Começou a trabalhar com 15 anos de idade, e com o salário pagava um de seus primeiros cursos técnicos. Passou pelo teatro, design, comunicação e administração. E percorria esses caminhos na contramão da educação e do trabalho tradicionais, em que muitos jovens como ele se sentem realizados apenas quando recebem o salário ao final do mês, como ele mesmo sempre comenta.

Entendeu isso mais ainda ao iniciar sua vida profissional coordenando projetos culturais em um programa social de conscientização no trânsito, financiado pelo governo. Quando esse Programa oportunizou a sua primeira viagem para o exterior, ele percebeu que era possível: “Foi um marco na vida, quando percebi que eu conseguia pegar aquele fantástico mundo que eu imaginava e transformar em realidade”.

Mesmo com o rompimento desse trabalho, o sentimento de mudança de mundo foi mantido por ele, ao lado de pessoas e realidades que compartilhavam desse desejo. Esse foi o papel do fotógrafo, historiador e militante dos movimentos sociais, Serginho Neglia, que tornou-se um mentor desde aquele momento até os dias de hoje. Com isso, empreender foi para Jota o único caminho possível. Assim como criar um mundo e universo nas suas brincadeiras de infância era a única forma de conquistar seus sonhos, mesmo que fosse apenas no campo das ideias:

“Sou preto e empresário porque
essa foi a única opção que me restou:
Inventar uma empresa era fazer, mais uma vez,
com que os dias fossem menos difíceis.”

A partir daí, Jota criou a Atitude junto com muita gente que acreditava nessa mesma loucura, tal como Valéria Nogueira, hoje sócia e coordenadora de produção. Multiplicaram e expandiram o velho hábito de Jota em sonhar a partir da escassez, de ressignificar a dor e mudar tudo o que incomoda. Antes mesmo de ter um CNPJ ou uma sede estruturada, ele teve a ousadia de propor um projeto de conscientização ambiental à uma grande empresa da cidade. Essa primeira intervenção realizada consolidou uma parceria que se mantém até hoje. E foi o ponto de partida para percorrer criando revoluções e soluções diárias para as injustiças sociais e ambienteis. Como diz a própria equipe, são sempre ideias reais para problemas, pessoas e mundos reais.

Ao mesmo tempo em que conectam pessoas e ideias, a Atitude Inicial serve para despertar e potencializar inclusive negros de periferia para aquilo que fazem de melhor. E assim reúnem pessoas que amam ser artistas, comunicadores, atores, jornalistas, designers, entre muitos outros, para que sejam bons inclusive em mudar o mundo. Dessa foram, a arte, a cultura, a comunicação e outras diversas ferramentas desenvolvidas na empresa se tornam, sobretudo, tecnologias sociais feitas para transformar realidades. Como acredita Jota:

“Esse lugar é para todo mundo saber o tamanho que tem.
Enxergo as pessoas para despertar o melhor delas.
Sempre me pergunto: onde essa pessoa vai servir dentro da revolução do mundo?”


 

Priscila: uma vida por muitas histórias
de pretas protagonistas

Foto: Priscila Gama -Arquivo pessoal

Ao viver realidades de educação e profissão em que se incomodavam até com suas conquistas simplesmente por ser negra, Priscila Gama descobriu o seu papel no mundo: promover a demarcação e o protagonismo do povo preto, em qualquer que seja o lugar. Tudo isso por mais espaços afrocentrados, em que, por exemplo, ela não fosse mais a única negra nas salas de aula, como foi muitas vezes.

Desde criança, Priscila sempre se sentiu bonita, inteligente e inspirada pela beleza dos poucos artistas negros que via na TV. No entanto, junto com as oportunidades de frequentar escolas e faculdades particulares renomadas de sua cidade, veio a dor do racismo que violenta pessoas só por existirem, e mais ainda quando mostram algum destaque na sociedade.

“Era como se de um dia pro outro eu tivesse ficado mais preta.
Aquele não era o meu lugar.
Era agressivo para aqueles meninos e meninas
conviverem comigo”,

relembra, sobre a sensação que teve ao frequentar
os cursinhos privados de pré-vestibular.

Sua resistência a isso fez com que, anos depois de ter sido uma das poucas pretas no curso de Direito, Priscila hoje seja convidada para voltar à essa mesma faculdade. Mas dessa vez, é para compor a banca das apresentações de TCC, formaturas e grêmios estudantis de alunos negros, em que vê mulheres como ela conquistando seus diplomas. E também é assim que essas pessoas agradecem a ela, simplesmente por um dia ter lhes dito: “Vai, e não para. Porque eles querem que você pare”. Refletindo sobre isso, emocionada, ela sente que está conseguindo plantar algo que nunca teve quando precisou. Mas reconhece que é só o começo, e ainda há muito a ser feito.

São sentimentos como esse que marcam sua história como empreendedora social de projetos de protagonismo negro. Também atua como afroencer digital, e gestora de promoção da igualdade racial na Prefeitura Municipal de Vitória, Espírito Santo. Nesses vários espaços, dedica-se a valorizar a pretitude periférica desde quando educa seu filho para lidar com o racismo até quando faz questão de contratar médicos, advogados ou arquitetos pretos. Ela também se responsabiliza a reconhecer e lutar contra diversas formas de violência racial, seja ao apontar a falta de representatividade nos eventos que frequenta, ou em constranger situações de racismo que presencia.

Foi o que fez, por exemplo, quando soube que uma amiga sofria racismo no trabalho. Diante dessa atitude, ela enviou para os responsáveis dessa ofensa uma boneca negra, da marca de brinquedos afrocentrados Era uma vez o mundo, que representava e homenageava a própria Priscila, junto com uma carta. Ali, falou sobre a importância do respeito à estética e identidade negra da menina que foi vítima, avisando que ela não está sozinha.

É nessas revoluções diárias, de pouco a pouco e muitas vezes em silêncio, que Priscila constrói um mundo para incentivar que pretos e pretas periféricas possam voar para onde quiserem, sem limitações. E à medida em que alcança essas conquistas, sente também o impulso de multiplicá-las: “Eu queria que outras mulheres como eu se sentissem como eu me sentia: cheia de direitos”, conta ela, sobre o que move seus empreendimentos.

Foto: Bekoo das Pretas.

Conectar e reunir o público feminino em torno da questão racial e de gênero foi o ponto de partida para a trajetória do Instituto das Pretas, que há cinco anos ergue realidades até então inimagináveis. Do pequeno grupo de mulheres negras que se reunia em 2013, surgiram milhares de outras necessidades que só podiam ser preenchidas por elas mesmas. Uma delas foi o Encontro das Pretas, que a cada ano unifica em um evento as discussões e realizações afrocentradas da cidade. Da falta de autoestima com seus traços e cabelos crespos, surgiram também atividades de valorização da beleza afro. O que as fez organizar, na própria cidade, o movimento nacional Marcha do Orgulho Crespo. E daí vieram novas iniciativas, ao perceberem que ainda havia muito mais a ser debatido e conquistado:

“Empoderamento preto não é só se sentir bonito,
mas também fortalecer a autonomia e independência.
De que adianta eu dar poder sem ensinar
para a pessoa o que ela vai fazer com isso?”,
explica Priscila, sobre o que a levou a produzir
diversos espaços para inspiração e orientação.

Nesse sentido, o Instituto movimenta várias outras ações, como o Quilombinho, uma colônia de férias para acolher crianças negras da periferia, com a construção de suas identidades afro-brasileiras. Oferecem aprendizados lúdicos com tradições como capoeira, dança afro e tambores. E assim também criaram o Bekoo das Pretas: um festival em que pretos, e principalmente mulheres pretas, protagonizam e representam em todos os sentidos. A negritude é maioria em toda a produção e organização. E a programação, sempre focada na cultura afrocentrada, faz explodir no palco rappers, dançarinxs, dj’s e atrações com a diversidade dessas expressões artísticas.

Lançado há cerca de dois anos, o Bekoo também conquista territórios nacionais. A festa já realizou uma edição em São Paulo com a rapper Karol Conka, e frequentemente traz para o Espírito Santo artistas de fora, como o dj KL Jay, que integra o grupo Racionais MC’s, e a rapper paulistana Drik Barbosa.

Sobre Lais Rocio

Jornalista dedicada a ser, essencialmente, contadora de histórias! Apaixonada pela literatura da vida real, por investigação e pelas narrativas de culturas e tradições. Deposita em todas as experiências que desempenha, o olhar sensível e curioso, com desejo de aprender, descobrir e ser transformada pelas múltiplas realidades que as escolhem para enxergar.