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Afropotências #3

A arte feita por negros na frente e atrás das câmeras

 


Para artistas pretos, representatividade não é só aparecer.
É criar o roteiro e ser protagonista da cena.

 

 

“Uso minha voz para dizer o que se cala”, assim como canta Elza Soares, quebrar o silêncio é o que move os artistas que protagonizam este terceiro episódio da nossa série de reportagens Afropotências. Para a rapper Afari, a artista plástica Castiel Vitorino Brasileiro, o cineasta Izah Cândido e o ator Vander Neri, a arte é um grito que vem da alma, elevando a voz de tantas vidas silenciadas. 

“Faço o meu rap para dizer o que sinto
na minha comunidade,
com tantos jovens morrendo.
Canto para falar de toda a dificuldade, 

e ainda assim extrair beleza e superação”
,

diz Afari Mc.

Assim eles trazem protagonismo negro para o universo da arte, onde os pretos ainda são pouco representados, como mostra Castiel: “Representatividade não é fazer um filme com uma pessoa negra. Se o Brasil tem 54% da população preta, tem que ter uma novela com essa mesma proporção. Temos que apostar muito mais na equidade”.

Para eles, a presença da negritude nos diversos espaços artísticos e culturais significa muito mais do que aparecer e ser visto. Deve também gerar poder, oportunidades e autonomia para que possam criar o próprio enredo. Para que protagonizem não só nas cenas, mas também nos seus bastidores, produções e direções. Por isso, as afropotências dessa reportagem ocupam telas, cenários, palcos e galerias com toda a diversidade afro. E com isso revelam para o mundo seus infinitos traços, nuances e tons.


Afari, a rapper que lota os palcos com mulheres pretas

Foto: Alexandre Barrenha | Programa Manos e Minas

“A arte não me convidou, ela me arrastou pelo cabelo e disse: se enxerga”, com essa frase Afari descreve o momento em que o sonho de ser artista surgiu em sua vida. Veio para contrariar os destinos impostos a uma mulher preta e de periferia como ela, que relembra: “Saí do meu estado de conforto, de aceitar que eu ia ser pobre a vida toda”.

Em sua comunidade periférica, ela sempre viu a juventude negra sendo explorada e exterminada. Para mudar isso, a solução encontrada não foi sair da favela, nem fugir ou se esconder da sua realidade. Ao contrário disso, Afari passou a olhar ainda mais para o seu mundo, combatendo a opressão e violência com diálogo, conhecimento e troca de ideias. Foi assim que ela descobriu o universo do hip hop, e todo o movimento negro e feminista que vinha de dentro da periferia, como conta:

“O rap me deu a sensação do lugar de fala. Me senti escutada.
As batalhas de rima me fizeram falar
sobre tudo o que eu estava vivendo,
e como aquela situação podia melhorar.”

Desde então, ela traz para o rap não só a denúncia das dores e violências dessa realidade, mas também a valorização de suas riquezas e potencialidades. “Ainda assim temos beleza e alegria nos sorriso das crianças, no colorido da comunidade. É lindo entrar ali e ver pessoas de todas as cores, vivendo com pouco e ainda sorrindo”, reconhece, relembrando o tema de uma de suas músicas, Cenários. Com mais de 11 mil visualizações no Youtube, a faixa é uma das principais do grupo de rap feminino que ela faz parte, o Melanina Mc’s.

Afari descobriu que os palcos também eram feitos para mulheres como ela, ao ver um show do Melanina Mc’s, quando nem imaginava que se tornaria uma de suas vocalistas. Até então, suas únicas referências femininas no rap eram apenas quatro cantoras de sucesso nacional, entre elas Negra Li e Dina Di. Mesmo assim, aquilo ainda parecia distante de sua realidade, e ela desenvolvia suas rimas no funk, lidando com o machismo nesse universo. “Era muito homem em cima do palco. Eu ficava até tímida para mandar meu som, tinha que me sexualizar para atrair atenção do público. Eu queria contribuir muito mais com as minhas ideias”, afirma a rapper.

No Melanina Mc’s, ela se inspirou com a arte que sempre quis fazer. Após algum tempo como fã assídua do grupo, foi convidada para ser integrante. Pela primeira vez, subia em um palco lotado de mulheres, ao lado das parceiras Geeh, Lola e Mary Jane. E desde então, com empoderamento feminino negro, o quarteto enfrenta os desafios vividos por milhares como elas.

 “Quando uma mulher preta e periférica
se vê protagonista da sua realidade,
ela empodera várias outras mulheres.
Acreditar em nós mesmas é o que nos motiva”,
conta Afari.

Foto: Produção Melanina Mc’s

Em seis anos de estrada, elas escancaram as portas de entrada para o protagonismo das pretas da favela. Com destaque nacional, realizam shows dentro e fora do Espírito Santo. No últimos meses, lançaram o videoclipe “Casa da Madeira” pela produtora de rap’s do país inteiro Rapbox; e foram convidadas especiais do Programa Manos e Minas, da TV Cultura, que já recebeu artistas como Mano Brow e Criolo. Em seu primeiro disco, Sistema Feminino, elas reúnem histórias, dores e sonhos de mulheres negras. E com a mistura de ritmos e vozes de várias musicistas convidadas para o projeto, combatem mais um desafio do machismo no hip hop: o de poder ser o que quiser, sem ter que se masculinizar ou estar com homens para protagonizar a cena.

Acreditando transformar o mundo com suas ideias, uma caneta e um microfone, Afari também criou o coletivo Batalha da Ponte, junto com o rapper capixaba MD Silva. Desde 2014, o projeto ocupa uma praça todos os domingos com batalhas de mc’s, mobilizando jovens de pelo menos cinco comunidades periféricas. “Disseminamos a arte e cultura urbana na cidade, e também incentivamos os jovens a criarem batalhas de rap nos seus bairros. O projeto criou o protagonismo e atuação de novos mc’s e poetas, aumentando seus trampos individuais como artistas”,
reconhece a rapper.


Castiel, a artista que ocupa museus com mandingas da cultura negra

Foto: Castiel | Arquivo

A arte esbarrou no meio do caminho de Castiel Vitorino Brasileiro em busca de si mesma, como narra ela: “uso a arte como arma de guerra, contra a colonização dos meus pensamentos e desejos”. Criada na periferia, a performer, artista plástica e estudante de Psicologia teve a infância acolhida por valores poéticos e fundamentais do orgulho e cultura afro transmitidos por sua família. No entanto, sua feminilidade desafiava o ideal do homem negro masculino, forte e destemido que esperavam que fosse, a exemplo de seu pai, um capoeirista de destaque no morro.

Após passar pela infância e adolescência com medos e angústias por conta da sexualidade, Castiel entendeu que sempre foi bicha preta: um gênero e movimento de pessoas negras e femininas, com órgão sexual lido como masculino, discriminadas e violentadas por serem quem são. Como explica ela, as bichas pretas se diferenciam de gays, trans e travestis. E se reivindicam ao criar novos significados para o xingamento que escutaram a vida inteira:

“As bichas pretas são uma desobediência
contra tudo que a sociedade entende como homem negro.
Elas debocham e trazem alegria a partir de muito sofrimento.” 

A primeira de sua família a ingressar na universidade, Castiel foi aprovada em primeiro lugar no vestibular para Psicologia. Ao entrar na graduação, deparou-se com teorias acadêmicas de origem europeia e estadunidense, feitas por pessoas não negras e voltadas para elas mesmas. Boa parte das oportunidades que apareciam para exercer a profissão de psicóloga estavam bem distantes da periferia e da cultura afro.

Para contrariar isso, Castiel resolveu extrapolar os limites daquele espaço: “Apostei em levar a psicologia para os territórios da população negra”. No lugar dos centros terapêuticos elitizados e acessíveis somente para quem paga caro por eles, ela viu as terapias oferecidas por e para pessoas pretas, com educação, cultura e saúde pública na periferia. Indo mais além, descobriu a psicologia presente na cura das tradições afro. E assim, encontrou a arte:

“Uso a arte para produzir saúde para o povo preto.
Para desnaturalizar as mazelas do racismo
e intensificar o que fazemos de bom,
nossos saberes tradicionais como a capoeira, as bandas de congo, o candomblé, a umbanda, o hip hop e funk.”

Castiel durante uma de suas perfomances, “Benzimento”, sobre adoecimento e saúde para corpos negros | Foto: Rodrigo Jesus

Com o artesanato, a costura, as performances e intervenções artísticas, Castiel expressa as diversas lutas e criações que fazem parte da sua história, como explica: “Tento traduzir e atualizar ensinamentos ancestrais oferecidos por africanos, entidades afro-brasileiras, negros que vivem diásporas diferentes da minha”.

Em um de seus projetos atuais, ela irá levar para dentro de uma galeria de arte da cidade as plantas sagradas, usadas no banho de 7 ervas dos terreiros de religiões afro-brasileiras. Na obra, elas ficam armazenados em uma colete salva- vidas costurado por Castiel, com um significado: “Quando sofremos, parece que estamos afundando no mar. A cura das ervas naturais nos dá a sensação de subir à superfície e aprender a mergulhar”. Tudo isso será dedicado ao “Projeto Malungas”, exposição contemplada por um edital da Prefeitura de Vitória, que irá ocupar o Museu Capixaba do Negro (Mucane) no próximo mês.

O resgate da medicina natural também foi tema de sua performance “Plantas que curam”, criada por ela e a benzedeira Yasmin Ferreira. Em uma barraca de medicamentos e mandingas nas ruas de periferias da cidade, elas convidam pessoas para uma conversa sobre suas dores e cansaços, transmitindo ensinamentos e tratamentos com suas receitas de ervas cultuadas pelas tradições ancestrais africanas. Assim Castiel resgata e recria a história da negritude nesses e em outros projetos que realiza, dentre imersões e residências artísticas, direções de arte, perfomances e diversas produções culturais, algumas apoiadas por editais de arte e cultura. Para cada ação, ela se inspira e se guia pelos versos da ativista Beatriz Nascimento: “É preciso mostrar no gesto que não somos mais cativos.”


Izah, o cineasta que conta histórias de vidas negras nas telas

Foto: Atitude Inicial

 

No cinema, Izah Cândido refaz o roteiro de sua própria vida como um observador curioso, que carrega muitas histórias dentro de si. Sua arte é nutrida pelas inspirações de tantas pretas e pretos, principalmente trans, bichas, travestis e sapatões que fortalecem a diversidade e cultura negra. Em meio a espaços que excluem e violentam essas vidas, ele reconstrói sua identidade como homem negro e trans.

 “Nem sempre estamos pisando em solo confortável.
É assim que a diáspora africana se fez e faz.
Em uma migração forçada, corpos negros foram
levados a todos os cantos do mundo.
E assim, resistentes, constroem suas identidades”,
narra Izah, em uma de suas produções audiovisuais
.

Ao longo de sua história, a descoberta dos desafios do racismo veio junto com as lutas que o acolheram desde a infância, inicialmente com a participação ativa de sua mãe no movimento negro. Quando vivenciou sua transição de gênero, Izah esbarrou com novas formas de preconceito: “Como mulher negra, me olhavam como hipersexualizada, poderia ser vítima de estupro. Hoje, como homem, me olham como predador e suspeito”. Vindo do interior de Minas Gerais, ao ingressar no curso de cinema na Universidade Federal do Espírito Santo, ele dedicou-se a lutar e produzir da melhor forma possível em defesa da negritude.

Assim se identificou com o cinema negro, marcado pelo manifesto Dogma Feijoada (2001), do cineasta Jefferson De. Esse movimento levanta a urgência de diversas ações, tais como realizar filmes com diretores e protagonistas negros, retratando temáticas da cultura afro, entre outras demandas. Exemplo nítido que justifica essa luta por representatividade, as produções cinematográficas do país não tiveram nenhuma diretora ou roteirista preta, e 2% de homens pretos nas direções e roteiros, entre 2002 e 2012. As atrizes e atores afrodescendentes foram, respectivamente, 4 e 14% nos elencos principais. Todos esses dados foram levantados pela pesquisa “A Cara do Cinema Nacional”, do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), do IESP-UERJ.

Trecho do webdoc Corpo Flor, com roteiro, direção e produção executiva de Izah Cândido e Wanderson Viana | Foto: Corpo Flor

Para fortalecer a potência afro nas telas, Izah criou o vlog e websérie Corpo Flor, em parceria com seu amigo e também cineasta Wanderson Viana. O projeto revela como pessoas negras se descobrem, reconstroem sua identidade e potencializam as riquezas afro-brasileiras, que haviam sido silenciadas e perdidas pelo racismo em diversos espaços. A cada episódio, são retratados temas como espiritualidade, estética, sexualidade, ente outros.
O Corpo Flor foi contemplado neste ano pelo edital Juventude Vlogueira, do Ministério da Cultura, que premiou iniciativas do país inteiro como apoio financeiro para se realizarem. O webdoc também contou com a parceria da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). Entre essa e outras produções, Izah traduz na prática o que acredita:

“Buscamos fazer com que as histórias sejam escritas e interpretadas por negros,
na frente e atrás das câmeras.
Para que a população preta tenha
mais autonomia no fazer artístico”,
relata Izah.


Vander, o ator que ergue o protagonismo negro no teatro

Foto: Atitude Inicial

Para o ator Vander Neri, ser bicha preta, artista e umbandista são potências que representam muito de sua essência e história. E tudo isso não deve limitar suas conquistas, talentos e potencialidades. Quando criança, de origem pobre, ele não costumava desejar o que queria ser na vida. Ao conhecer o teatro na adolescência, descobriu que podia ser o que quisesse:

“O teatro chegou na minha vida dando um tapa.
Era um lugar que cabia todo mundo.
Me mostrou que eu também podia fazer.
E veio essa vontade de ganhar o mundo”,
relembra Vander.

A consciência de sua negritude surgiu de um jeito inusitado, quando saiu na capa de um jornal. Ao verem aquilo, seus familiares e professores disseram “preserva isso”, referindo-se ao fato dele ser o único negro na foto, que estampava a matéria sobre a turma de adolescentes que faziam teatro. Ali, Vander percebeu que era diferente dos outros.

Desde então, vieram inúmeros desejos e talentos, ao mesmo tempo em que apareciam inúmeras dificuldades, enfrentadas com a própria arte. Com a necessidade de se sustentar e a falta de recursos para isso, enquanto distribuía currículos por todos os lugares possíveis, Vander se vestia de palhaço para vender balas no sinal. Trabalhou em supermercados e teve vários bicos, chegou a mudar de cidade algumas vezes em busca de novas oportunidades, e percorreu boa parte desses momentos sendo um artista de rua.

Quando foi contratado para atuar em espetáculos de empresas e companhias, a discriminação racial criou novos impasses. Em alguns lugares que trabalhou, percebia diversos casos em que atores não negros eram os primeiros escolhidos para atuar em papéis principais, personagens e peças teatrais mais valorizadas. Com isso, costumava ser a última opção, selecionado em último caso quando esses outros atores não estavam disponíveis.

Vander encenando uma de suas principais intervenções teatrais sobre conscientização social | Foto: Atitude Inicial

 

A mudança dessa realidade veio quando foi chamado para compor o time da empresa social Atitude Inicial, há cerca de três anos. O simples fato de ter sido convidado por sua atuação e potencialidades profissionais, bem antes de pensarem em sua cor de pele, fez toda a diferença para ele. Desde então, é protagonista nos espetáculos e oficinas teatrais da empresa, que usa o teatro como uma das tecnologias sociais para causar conscientização, reflexão e revoluções diárias na vida das pessoas. Ali, Vander também percebe o diferencial de um espaço artístico e profissional que acolhe suas ideias e propostas, inclusive por terem outras pessoas negras entre seus idealizadores, funcionários e diversos colaboradores.

Não é só porque é meu rosto está ali,
é porque eles não acham que isso vai espantar as pessoas.
Isso deve ser valorizado não só porque sou bicha preta,
mas também porque os lugares
tem portas e caminhos para todos,
e porque temos capacidade”,
reconhece Vander.

As peças e performances encenadas por ele não necessariamente abordam questões raciais. Isso porque, para quem luta pelo protagonismo preto na arte, também importa envolver, incluir e valorizar pessoas pretas de forma orgânica e essencial nas produções. Para que isso vá além da obrigação, do oportunismo e do ‘braço social das empresas’, como acredita Jota Júnior, também negro, empresário e idealizador da Atitude Inicial: “Os talentos não têm cor. Eu não consigo pensar se uma pessoa é mais ou menos talentosa pela cor de pele. Precisamos olhar para suas habilidades e seus dons, reconhecer o que fazem e abrir espaço para o que quiserem ser.”

Sobre Lais Rocio

Jornalista dedicada a ser, essencialmente, contadora de histórias! Apaixonada pela literatura da vida real, por investigação e pelas narrativas de culturas e tradições. Deposita em todas as experiências que desempenha, o olhar sensível e curioso, com desejo de aprender, descobrir e ser transformada pelas múltiplas realidades que as escolhem para enxergar.