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Afropotências #4

E se negros e brancos partissem da mesma linha de largada?
Diretor escolar e advogado lutam por igualdade racial
e mais oportunidades para o povo preto.

Ao redor do país, o surgimento das favelas deu nome e endereço à desigualdade social e racial nas grandes cidades. Nesse movimento, a forte presença da população preta veio como uma herança da falsa abolição da escravidão, que não recompensou suas imensas perdas e dores com a negritude, e não lhes garantiu o mínimo de acesso a direitos humanos fundamentais. Somado a isso, o racismo permanecia por meio da ideia de higienização e embranquecimento da sociedade, que privilegiava pessoas não negras, de classes médias e altas, desvalorizando a identidade afro em vários espaços.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Com isso, diversos negros brasileiros tiveram que conquistar com as próprias mãos aquilo que parte privilegiada da população sempre teve de graça: condições básicas de vida. Sem inclusão no planejamento urbano, eles ocupavam os morros, matagais, as margens e áreas ainda não desenvolvidas das cidades.

E assim também foi para o professor Elizeu dos Santos, de origem pobre e afrodescendente. Ele, seus pais e os dez irmãos vinham do interior do Espírito Santo para ocupar uma das primeiras favelas da capital: a região de São Pedro. Nos manguezais que também eram depósitos de lixo da cidade, eles construíam seus barracos. Junto com outras 40 famílias que iniciaram o bairro nos anos 70, como consta nos registros históricos da Prefeitura de Vitória. “Nada nos veio de graça. A polícia derrubava os nossos barracos a mando do governo, e a gente reconstruía. Nossas lutas eram por água, energia, transporte, infraestrutura e aterramento do bairro”, descreve, relembrando memórias de uma infância em que mal teve tempo para ser criança.

Assim, ele sentiu na prática a segregação que afeta os negros e pobres. Sendo esses mais prejudicados com distâncias maiores, e obstáculos mais difíceis para alcançar desde recursos básicos até realizações de vida. Diante dessa realidade, Elizeu e o advogado André Moreira, personagens deste quarto episódio da série de reportagens Afropotências, lutam por igualdade para a negritude. À frente da educação e da justiça, respectivamente, é com as políticas públicas e direitos sociais que eles se dedicam a reduzir o longo caminho que separa pessoas negras de suas conquistas.

“O filho do pobre não é diferente do filho do rico.
A diferença do pobre é que tem menos oportunidades que o rico.
É preciso colocar os dois na mesma linha de largada.
A gente não quer que um chegue na frente do outro.

E sim que todos cheguem no mesmo ponto,
com as mesmas condições”,
afirma Elizeu.

Para eles, toda essa revolução começa apenas sendo quem são. Principalmente em espaços restritos como universidades, cursos de pós graduação, cargos de liderança, poder e chefia. Ali, tornaram-se referência e inspiração para quem está iniciando sua trajetória: “O melhor jeito de dizer para uma criança negra que ela pode ser o que quiser é sendo o que a gente quer ser”, reconhece André.

Em seus passos diários, eles acreditam abrir espaços para a negritude na sociedade. Para que suas realizações, talentos e potencialidades não sejam perdidos ou diminuídos pelo racismo, pela violência, exclusão ou violação de seus direitos. Assim como mostra o recente caso da advogada negra, Valéria dos Santos, que foi algemada e arrastada por policiais militares, simplesmente por exercer sua profissão durante uma audiência, quando discordou de uma juíza que também a discriminava pela cor da pele.Como ela afirmou em entrevista coletiva para a imprensa, é difícil visualizar a mesma cena acontecendo contra uma advogada branca.

Assim, resistir significa transformar o dia a dia das escolas, faculdades, hospitais, tribunais de justiça e de tantos outros lugares comuns para que tenham o mesmo acesso, o mesmo respeito e dignidade oferecidos igualmente para negros e não negros. Tal como ilustra André:

“Um sistema que não tem cotas raciais, por exemplo, é como uma corrida em que os brancos competem com sapatos equipados,
e os pretos estão competindo descalços.
Quantos bons profissionais a gente teria
se tivessem oportunidades para todos?
O Brasil também paga a conta da segregação.

Enquanto a gente não tiver igualdade,
não seremos referência em nada.

Estamos privando a nação dos melhores nomes. “

E é com a prática que Elizeu e André revelam: a inclusão social e racial são essenciais para as políticas de atendimento à população. Embora pareça óbvio, isso é reafirmado constantemente pelos dois defensores dos direitos humanos, diante de serviços que tornam-se cada vez mais precários e escassos especialmente quando atendem à população preta de periferia. Como diz o professor: “A sociedade tem essa noção de que tudo tem que ter uma péssima qualidade na saúde, educação e segurança, quando é para preto e pobre. O papel do poder público é dar o melhor para todos aqueles que recorrerem a esses serviços.”


Elizeu, educador de esperanças

Elizeu constrói uma educação com acolhimento aos problemas vivenciados pelos alunos, feita com empatia e humanização. Ao contrário de um ensino mecânico e operacional, que não permite um olhar sensível para a realidade. “As crianças e jovens não são purificadas ao entrar na escola. Elas carregam toda a tragédia social da comunidade em que vivem. O nosso papel é dar conta desses problemas, e resgatar o que foi perdido”, conta ele.

Envolvido desde criança com as lutas comunitárias por sobrevivência, ele teve o sonho e desejo pulsante de transformar essas histórias. A escola pública fundada por sua vizinhança com o nome de “grito do povo” foi onde ele estudou, e mais tarde, reconheceu o seu espaço de mudança. Assim, tornou-se professor dali mesmo, onde hoje atua como diretor escolar, na EMEF Francisco Lacerda de Aguiar, da rede municipal.

Com os méritos de seus 30 anos de carreira pela Prefeitura de Vitória, ele poderia selecionar qualquer escola da cidade para atuar, inclusive uma com estruturas melhores ou localizada em bairros nobres. Mas a escolha por permanecer trabalhando em São Pedro têm um importante propósito, que vai muito além da sua carreira profissional:

“Me vejo naqueles jovens, vivo com eles aquele momento.
Têm alunos que ficam 30 dias sem comer durante as férias, porque é no colégio que eles comem, tá vendo a importância?

Naquela comunidade, a escola tem a função
de ser um fio de esperança para essas crianças.
É o único lugar de oportunidades.”

Nesse cenário de poucas perspectivas de vida, Elizeu leva o aprendizado com conhecimento intelectual, esporte e cultura. Tudo isso para contrariar a ilusão de poder, riqueza e realização que o crime e o tráfico causam aos jovens negros de periferias, quando isso chega para eles como único caminho possível. Tal como mostra o professor: “Os jovens olham o vizinho que trafica drogas com um carrão, e vêem o professor ganhando mal. Podem até cortar meu salário, mas vou continuar lutando por um ensino de qualidade, para a criança acessar, permanecer e aprender. A educação é ferramenta de transformação, por isso acredito nela.”

E em contraponto à repressão e violência que afetam a negritude, Elizeu acredita em ensinar com afeto, amor e compreensão. Ele contradiz a ideia de autoritarismo atribuída ao diretor escolar, sendo conhecido e abraçado por todos os estudantes. Diariamente, toma para si compromissos de estar por perto, e acompanhar as turmas em diversos momentos junto com seus professores.

Um exemplo disso foi quando recebeu um novo aluno na escola, que havia sido expulso do colégio anterior e era visto como problemático pela equipe pedagógica. Logo no primeiro contato, o professor explicou que não importava o que ele havia feito antes, porque ali era um espaço de novas atitudes. Durante uma de suas primeiras atividades na nova escola, o garoto ficou surpreso com a proximidade e afeto que o diretor mantinha com os estudantes, e disse à Elizeu: “Como o senhor é querido. Na minha escola anterior, eu só vi o diretor quando ele veio me mandar embora.” Outra situação que para ele fez toda a diferença aconteceu ao receber o telefonema de uma mãe, pedindo que seu filho entrasse na segunda aula. O motivo era que ele precisava trabalhar mais cedo entregando marmitex, para ajudar no sustento de casa. O diretor, que entendeu e liberou o estudante, reconhece a importância desse tipo de compreensão nos detalhes da rotina escolar das favelas, contrariando as burocracias e regras tradicionais das escolas.

“A gente tem que ter muita sensibilidade
para dar aula em um bairro pobre.

A vida na periferia é diferente.
Às vezes a criança tem dificuldade

de aprendizagem na escola, mas sabe pegar um ônibus,
ir fazer um bico na feira e chegar em casa com R$50 reais.
A gente se defende, sobrevive e luta”,
afirma ele.

O engajamento para melhorar a vida da comunidade o fez ocupar novos espaços de transformação social. Ao longo de sua trajetória, foi administrador regional do bairro São Pedro e secretário de Coordenação Política pela Prefeitura de Vitória. E em 2004, o professor e militante foi convidado para ser secretário municipal de educação pela Prefeitura de Vitória.

Entre suas diversas realizações à frente da secretaria, ele fundou a Comissão de Estudos Afro-brasileiros (Ceafro), que tornou-se referência nacional e já esteve em eventos internacionais. Dedicada ao combate à discriminação racial nas escolas públicas, a Ceafro foi criada para a implantação da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira. Como informa a Prefeitura de Vitória, em seu portal: “Somente a lei não seria capaz de alterar as práticas racistas do cotidiano das escolas. Era preciso um conjunto de ações e um setor responsável por gerenciá-las”. Assim, a Ceafro atua até hoje pela valorização da cultura afro, promovendo formações aos professores, oficinas, debates e assistência há mais de dez anos. Ao olhar para essas conquistas, Elizeu reflete: “Como secretário, era a minha obrigação e o meu momento de dar a minha contribuição. São essas coisas que fazem com que a gente não perca a esperança. Se tudo acabar hoje, já valeu o que conquistei.”


André, defensor da justiça social e racial

No mundo da advocacia e da justiça, André Moreira constrói seu espaço de luta pela vida da população preta e de periferia. A denúncia e a defesa das causas sociais são suas principais ferramentas de transformação da violência contra a negritude em seu estado.

Nos presídios capixabas, que possuem 78% de negros entre mais de 20 mil pessoas presas, de acordo com dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), André realizou denúncias de tortura contra os detentos, no caso que ficou conhecido pelas “masmorras do Espírito Santo” e foi denunciado pela ONU, em 2011. Essas condições desumanas nas penitenciárias foram investigadas por ele quando estava na presidência do Conselho Estadual da Criança e do Adolescente (CRIAD), um dos órgãos públicos que já representou.

Ao longo de mais de 20 anos de carreira, sua atuação em cargos com tanta exclusão racial sempre trouxe desafios. Começando pelo curso de direito na universidade pública, em que André foi um dos sete negros entre os 700 alunos da faculdade. Depois, mais impasses vieram ao assumir a presidência da Comissão dos Direitos Humanos da OAB/ES, e a secretaria geral desse mesmo órgão. À medida em que conquistava destaque e visibilidade em sua área, passou a sentir o efeito do embranquecimento. Em diversos momentos, ouviu em tom de elogio a frase: “você não é tão preto”.

“Se você chegou lá [nos espaços de destaque profissional],
a primeira tentativa do racismo é tentar fazer
com que você seja branco,
já que ela não conseguiu nos derrubar
no meio do caminho”,
reconhece o advogado.

E como mais um sintoma dessa discriminação, André foi chamado de ‘preto safado’, quando fiscalizava e denunciava um caso de corrupção dentro do seu local de trabalho, no mesmo espaço onde as pessoas tentavam negar a cor de sua pele constantemente. Em resistência a tudo isso, ele reafirma cada vez mais a própria negritude. Ao mesmo tempo, também reconhece os privilégios tidos por fazer parte de uma parcela da população negra que ascendeu para a classe média.

Foi gradativamente que André uniu a profissão, a atuação política e a questão racial em um só propósito. No entanto, um pouco dessa consciência chegou em sua vida logo cedo, por meio de sua mãe, que sempre foi ativa nessas causas. Ele descobriu a discriminação racial na infância, quando foi demandando pela família para ir num boteco comprar cervejas, e o dono do bar desconfiou dele por roubo, pedindo para revistá-lo mesmo sendo uma criança. Sua mãe logo resistiu e advertiu ao homem que ele discriminava seu filho simplesmente pela cor da pele. Assim, ele passou a defender ainda mais a justiça social, com a militância que começou  aos 14 anos, na liderança do movimento estudantil da escola pública em que estudava.

Em 2013, André filiou-se ao seu primeiro partido político, o PSOL. Desde, então, se candidatou à Prefeitura de Vitória e ao Senado do Espírito Santo. E neste ano, é candidato a governador do estado, disputando um cargo que não elegeu nenhum negro nas últimas eleições no país inteiro, em 2014, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nesse período, entre todos os candidatos eleitos para os mesmos cargos em disputa atualmente, apenas 3% se declararam pretos, e 21% pardos. Mesmo sem nunca ter sido eleito até hoje, André permanece nas disputas eleitorais por acreditar em dar visibilidade ao debate dos direitos humanos e da representatividade negra na política.

Sobre Lais Rocio

Jornalista dedicada a ser, essencialmente, contadora de histórias! Apaixonada pela literatura da vida real, por investigação e pelas narrativas de culturas e tradições. Deposita em todas as experiências que desempenha, o olhar sensível e curioso, com desejo de aprender, descobrir e ser transformada pelas múltiplas realidades que as escolhem para enxergar.